Um geólogo do dilúvio se retrata

Postagem do mês: abril de 2002

por Mike Dunford

Assunto:    The Flood and empirical evidence (WAS: Re: Wilkins Argues...)
Newsgroups: talk.origins
Data:       April 21, 2002
Mensagem-ID: Xns91F6E7AB539AEmdunfordhawaiirrcom@66.75.162.198

A Pagano <anthony.pagano@verizon.net> escreveu em news:bri3cucgiqeu3a8v54egkllf0rfb5fsv7f@4ax.com:

[trecho suprimido]

<sigh> Perdi a conta de quantas vezes respondi às suas alegações incorretas e enganosas sobre o tratamento do dilúvio pela geologia. Não me recordo de você ter reconhecido alguma delas. Ainda assim, tentarei novamente.

> Qualquer teoria particular é, de fato, parte de uma estrutura que
> contém algum número de suposições, condições iniciais e
> pressupostos que não são observáveis e para os quais não se faz
> nenhuma tentativa de observação. O que é crucial são as consequências
> empíricas e as proibições de tal estrutura.
[trecho suprimido]
> Deus pode não ser observável, mas as consequências empíricas de
> uma inundação catastrófica, global e de curto prazo, colocada em
> movimento por uma causa sobrenatural, certamente o são.
[resto suprimido]

Um geólogo célebre já fez uma declaração extraordinária em um discurso público perante o que era, na época, a principal sociedade geológica do mundo:

...Mas as teorias do cascalho diluvial, como todas as outras generalizações ardentes de uma ciência em avanço, devem sempre ser tratadas apenas como hipóteses mutáveis para serem modificadas por cada novo fato, até que, enfim, sejam harmonizadas com todos os fenômenos da natureza.

Em retirar-nos onde avançamos demais, não há nem perda de dignidade nem perda de força; porque ao fazermos isso, participamos apenas da fortuna comum de todos os que ingressam em um campo de investigação como o nosso....

Em relação a esta difícil questão, existe, penso eu, uma grande conclusão negativa agora incontestavelmente estabelecida -- de que as vastas massas de cascalho diluvial, espalhadas quase por toda a superfície da Terra, não pertencem a um único período violento e transitório. Foi de fato uma conclusão bastante infundada, quando assumimos a contemporaneidade de todo o cascalho superficial da Terra. Vimos os rastros mais claros de ação diluvial, e tínhamos, em nossas histórias sagradas, o registro de um dilúvio geral. Sobre esse duplo testemunho foi que demos unidade a uma vasta sucessão de fenômenos, nenhum dos quais compreendíamos perfeitamente, e sob o nome de dilúvio, agrupamo-los todos.

Buscar a luz da verdade física por esse tipo de raciocínio é, na linguagem de Bacon, procurar o vivo entre os mortos, e sempre terminará em indução errônea. Nossos erros foram, no entanto, naturais, e do mesmo tipo que levou muitos excelentes observadores de um século anterior a referir todas as formações secundárias da geologia ao dilúvio de Noé. Tendo eu mesmo sido crente, e, tanto quanto me era possível, propagador do que hoje considero uma heresia filosófica, e tendo sido citado mais de uma vez por opiniões que hoje não mantenho, penso ser correto, como um de meus últimos atos antes de abandonar esta Cadeira, ler publicamente minha retratação.

De fato, deveríamos ter parado antes de adotarmos inicialmente a teoria diluvial e atribuir todo o nosso antigo cascalho superficial à ação do dilúvio mosaico....
(Sedgwick, 1831, p. 312-314)

Essa declaração é excepcional não tanto porque exibe a coragem de admitir publicamente um erro significativo (embora tal coragem seja ao mesmo tempo admirável e tristemente rara), mas mais por causa de quem fez a declaração, quando e por que.

O orador era o reverendo Adam Sedgwick, Professor de Geologia Woodwardian da Universidade de Cambridge, e no momento de sua “retratação” presidente da Geological Society of London. Ele era um geólogo altamente respeitado (e ainda é considerado por muitos como um dos maiores geólogos de todos os tempos), e até pouco antes desse discurso era considerado um dos defensores mais firmes do dilúvio como evento principal na história da Terra. Deve-se notar que Sedgwick prosseguiu após essa declaração confirmando sua crença no dilúvio de Noé como um evento histórico; ele não admitiu que o dilúvio não tivesse ocorrido, mas que não foi um fator geológico significativo:

...negamos a realidade de um dilúvio histórico? Eu rejeito absolutamente tal inferência. A verdade moral e a física podem compartilhar uma essência comum, mas, em que nos concerne, suas fundações são independentes e não têm um elemento comum. E nas narrativas de uma grande catástrofe fatal, ... não há uma única palavra que nos autorize a buscar em quaisquer meros monumentos físicos os registros inteligíveis desse evento...
(Sedgwick, 1831 p. 314)

Esse foi um salto notável para um homem que, apenas alguns anos antes (em 1825), havia defendido exatamente o oposto:

...O registro sagrado nos diz -- que há alguns milênios atrás “as fontes do grande abismo” foram rompidas -- e que a superfície da Terra foi submersa pela água de um dilúvio geral; e as investigações da geologia provam que os acúmulos de matéria aluvial ... foram precedidos por uma grande catástrofe que deixou rastros de sua operação no detrito diluvial que está espalhado por todas as camadas do mundo.

Entre essas conclusões, derivadas de fontes totalmente independentes uma da outra, há, portanto, uma coincidência geral impossível de ignorar, e a importância da qual seria totalmente irrazoável negar. A coincidência não foi assumida hipoteticamente, mas foi comprovada legitimamente, por um imenso número de observações diretas conduzidas com trabalho incansável, e todas tendendo à confirmação da mesma verdade geral.
(Sedgwick, 1825; Quoted in Hallam, 1989 p.43)

Sua retratação marca o sinal fúnebre dessa hipótese, embora passariam alguns anos antes que as convulsões finais cessassem. Em 1840, porém, nenhum geólogo respeitado continuava a propor que o dilúvio fosse um fator principal na história da Terra.

O timing dessa declaração também é algo importante a notar, já que estabelece o contexto da sua posição quanto a outros conceitos importantes da história da geologia. Sedgwick fez sua retratação na reunião anual da Geological Society of London, em 18 de fevereiro de 1831. Obviamente, isso é muito antes do trabalho de Darwin; de fato, serão ainda outros dez meses antes de ele partir no Beagle. O primeiro volume de Princípios de Geologia de Lyell tinha sido publicado há apenas alguns meses, e serão passados mais alguns anos até que William Whewell cunhe o termo “uniformitarianismo” para descrever a filosofia subjacente ao trabalho de Lyell. O catastrofismo era a doutrina dominante em 1831, e Sedgwick um de seus chefes.

Os fatores que ditaram a mudança de perspectiva de Sedgwick são importantes, mas também são fatores que não exerceram papel principal nesta conversão. Vou primeiro tratar desses não-fatores:
-As convicções científicas de Sedgwick não mudaram porque suas convicções religiosas teriam mudado. De fato, como demonstrei acima, sua aceitação baseada na fé do dilúvio noéico não mudou apesar da sua admissão de que não havia evidência física para o dilúvio. (Ver citação acima.)
-Sedgwick não mudou suas visões por influência do uniformitarianismo de Lyell. Embora Sedgwick tivesse lido o volume um até o momento de sua retratação, ele era fortemente contrário a muitos pontos do trabalho de Lyell, incluindo o núcleo uniformitarista. De fato, ele deixou isso claro anteriormente nesse mesmo discurso, quando revisou Principles.
-Sedgwick não mudou suas visões porque novas descobertas tivessem tornado possível dispensar a influência divina como causa para aqueles depósitos. A natureza dos depósitos tinha sido esclarecida, mas nenhuma nova causa fora sugerida. De fato, seriam necessários vários anos até que Agassiz propusesse e popularizasse a ideia da era glacial, e vários mais até que essa hipótese fosse geralmente aceita.

Por que, então, as visões do bom reverendo mudaram de forma tão completa? Suas suposições e pressupostos não mudaram. Deus não foi encaixado em uma lacuna menor por uma nova explicação para as evidências que tornasse um papel divino maior desnecessário. Nem alguma das demais condições não observáveis que Pagano afirma ter tido um papel tão importante na remoção de Deus da ciência estava em jogo. O que então foi tão crítico para convencer um homem do clero a parar de usar o dilúvio para explicar grandes recursos geológicos?

A resposta é simples: evidência empírica. Porque as camadas de “dilúvio” que tinham sido citadas como evidência de um dilúvio global eram compostas de cascalho e outros sedimentos não consolidados e eram mais difíceis de investigar do que o sedimento rochoso consolidado mais antigo. Entretanto, após muito estudo, alguns geólogos puderam mapear porções do “dilúvio” e demonstrar conclusivamente que elas eram resultado de eventos diferentes, claramente separados no tempo. Quando isso foi firmemente estabelecido, ficou claro para Sedgwick e outros que, se os depósitos eram claramente resultado de uma série de eventos distintos, não poderiam ser resultado de um único dilúvio global. Portanto, como cientista de consciência, Sedgwick rejeitou sua hipótese anterior.

O abandono de uma hipótese por Sedgwick, contradita pela evidência empírica, apesar de suas convicções religiosas, é o ato do verdadeiro cientista e contrasta fortemente com o exemplo fornecido por criacionistas modernos da Terra jovem. O criacionista moderno da Terra jovem está na posse dos mesmos dados que Sedgwick tinha -- bem como de mais de 150 anos de pesquisa -- mas não está disposto a fazer a mesma concessão que Sedgwick fez, mesmo diante de evidência ainda mais esmagadora.

Em vez disso, o criacionista moderno da Terra jovem assume uma perspectiva singular. Em vez de tratar o dilúvio como uma hipótese que precisa ser testada contra a evidência, e sujeita a ser descartada se for contrária à evidência (como Sedgwick fez), os criacionistas modernos da Terra jovem declaram o dilúvio, sua abrangência e efeitos como FATO definitivo e inquestionável, não sujeito a discussão. Em vez de modificar sua visão dos eventos com base na evidência empírica, insistem que os fatos básicos de sua história são absolutamente verdadeiros, e que a evidência deve ser interpretada à luz disso. Isso, por sua vez, conduz a um ciclo vicioso na sua chamada ciência, à medida que eles anexam modificações ad hoc a modificações ad hoc.

Em vez de seguir o conselho de Pagano e buscar as consequências empíricas do dilúvio (para dar-lhes o devido tratamento, isso foi feito, como demonstrei acima), eles tentam criar explicações para a evidência que não contradigam sua versão assumida dos eventos e depois explicam as discrepâncias nas consequências empíricas dessas explicações. E assim por diante. E assim segue. (Esta postagem já ficou longa o bastante para que eu me abstenha de publicar alguma da grande quantidade de exemplos disponíveis; mas posso e farei isso mediante solicitação.)

A diferença entre o criacionista moderno da Terra jovem e os primeiros geólogos como Sedgwick é clara. Os primeiros geólogos começaram assumindo que o dilúvio bíblico era um fator principal na história da Terra. Quando foi demonstrado que a evidência contrariava tal visão, eles a descartaram como hipótese com diferentes graus de relutância e seguiram para rotas de investigação mais novas e promissoras. Os criacionistas da Terra jovem começam declarando que o dilúvio bíblico foi definitivamente um (se não O) fator principal na história da Terra e tentando explicar toda a evidência de acordo com essa crença. As ações de Sedgwick são um crédito à ciência, e sua expressão de fé contínua na historicidade de um dilúvio global apesar da agora reconhecida ausência de evidência dá testemunho de seu nível pessoal de fé. O frenético esforço desesperado dos criacionistas da Terra jovem para encontrar motivos para que sua fé não seja ameaçada pela evidência não dá crédito a ninguém.

Referências:

Sedgwick, Adam. 1825. Annals of Philosophy, ns 10, 34. Quoted in Hallam, A. 1989. Great Geological Controversies, 2nd ed. Oxford U. Press. New York.

Sedgwick, Adam. 1831. Anniversary Address of the President, 1831. Proceedings of the Geological Society of London. v.1 p. 281 -- 316.

--Mike Dunford

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