Uma questão de design
Post of the Month: June 1997
por John Wilkins
Enquanto eu lia um livro sobre filosofia da ciência do físico/engenheiro
tornado filósofo Frederick Suppe — The Semantic Conception of Theories
and Scientific Realism, Uni Illinois Press, 1989 — eu me chamou a atenção
deste trecho:
"Enquanto na ciência pura, modificar o mundo não é o objetivo do empreendimento, mas sim um subproduto incidental da pesquisa básica, na engenharia, modificar o mundo é o objetivo do empreendimento. Na medida do possível, a engenharia se baseia nos resultados da ciência pura para projetar seus produtos; mas as teorias científicas tratam de como as coisas se comportarão em circunstâncias bem isoladas, enquanto o trabalho do engenheiro é construir sistemas que funcionem com confiabilidade em circunstâncias rotineiras não isoladas. A variabilidade e a complexidade das circunstâncias possíveis de não isolamento nas quais os sistemas podem realmente ter de operar são tais que a engenharia quase nunca possui hipóteses auxiliares bem estabelecidas que possam ser usadas em conjunto com as teorias mais básicas para prever com precisão como um dispositivo de engenharia, conforme projetado, se comportará na faixa de circunstâncias do mundo real em que se encontrará." 282
O que acho tão intrigante nisso é que, em reflexão, é um argumento excelente para Deus como projetista, e mesmo como engenheiro no sentido amplo deste termo. Por quê?
Bem, considere isto: a noção de Deus como projetista é defendida por analogia com as atividades do design humano. Segundo Suppe (e muitos outros — este é simplesmente um trecho bem redigido para citar), o design funciona por meio de um processo de tentativa e erro, pelos motivos apresentados por Suppe: nenhum modelo científico simples (ou seja, nenhum conhecimento de princípios) pode ser usado para prever o que uma peça projetada fará. Você precisa construí-la, testá-la, fazer mudanças, testá-las e assim por diante, em tantos ambientes quanto você esperar que ela seja usada.
Quando olhamos em volta no mundo, especialmente naquela parte dele que mostra função e é candidata a ser considerada como sendo sistemas projetados (ou seja, a parte viva), vemos muita coisa do tipo erro, falha, desperdício e soluções arcaicas que já não se aplicam, junto com a adaptação e o ajuste ao meio. Vemos evidência de soluções antigas e já não úteis que ainda não foram removidas. Vemos soluções que são menos que ideais, mesmo quando alternativas claramente mais ótimas são evidentes.
Se parece de alguma forma projetada, a vida se parece com o projeto de um engenheiro humano: baseado em mais ou menos bom conhecimento de princípios, mas construído com os materiais disponíveis e uma grande quantidade de tentativa e erro. Deus é um “improvisador”, se é que Ele é algo.
Agora, não tenho certeza se aqueles que querem argumentar em favor de um Designer paleyano ficariam felizes com este argumento, mas ele deve, ao menos, levantar a questão das limitações do que deve ser contado como evidência de design. O argumento de Darwin não removeu a possibilidade de um Deus ser responsável pela forma e estrutura dos seres vivos, mas removeu a necessidade de ver esse design como perfeito, pois ele não é, e de vê-lo como a rota mais direta para o objetivo, pois não é.
Acredito que os defensores da Hipótese do Design (sejamos benevolentes, e a chamemos de hipótese) devem oferecer uma explicação do que eles contarão como design antes de dizer que o mundo apresenta evidência disso. Com certeza há evidência, mas será esse o tipo de engenheiro em que você quer acreditar?
Artigo originalmente publicado em 19 de junho de 1997